Nasci
na rua Conde do Bonfim na Tijuca, bairro da
cidade do Rio de Janeiro (RJ), numa manhã
chuvosa de quarta-feira do mês de outubro,
às 9:40, talvez por este motivo eu goste
tanto de chuva! Filho dos sergipanos Edson e
Maria. Meus irmãos são a Cé
(Celeste), dois anos mais velha e o Júnior
(Edson Júnior) o caçula, 10 anos
mais novo. A música, penso eu, já
estava comigo antes mesmo de eu nascer. Digo
isso porque acredito que a veia artística
não é conquistada, ela já
vem como acessório do indivíduo.
Tenho algumas lembranças de ficar cantando
enquanto brincava e meus pais confirmam isso
e contam que eu corria pra pegar minha guitarra
de brinquedo quando via o Roberto Carlos na
TV e ficava ali em frente a tela “tocando”.
Mudamos-nos para Brasília nos anos 70.
Foi lá que bem cedo a música passou
a tomar conta de mim. Tinha uns 12 anos mais
ou menos e guardo dessa época uma lembrança
preciosa, o colégio no qual estudava
nos levava todas as manhãs de domingo
para assistir aos concertos da Orquestra Sinfônica
do Teatro Nacional, os famosos "Concertos
Para a Juventude". Impressionava-me com
os instrumentos diferentes, o som dos contrabaixos,
dos cellos, das trompas... Muito tempo depois
essa fonte jorrou em mim quando compus, por
exemplo, “Viagem” que tem um arranjo
de cordas que me remete àquelas preciosas
manhãs de domingo. Nesta mesma época
participei do coral no mesmo colégio
e aí realmente percebi que era aquilo
que eu queria fazer, cantar. Aos quinze anos
tive um encontro com o violão. Foi pra
sempre. Na adolescência comecei a compor
e mostrava pros amigos, pra família.
Descobri então os festivais e participar
deles passou a ser uma constante. Foram muitos
durante muitos anos. Em Brasília, Goiás,
interior de Minas Gerais. Tive a sorte de sempre
classificar uma duas e até três
músicas em cada festival, porém
nunca fui vencedor de nenhum apesar de sempre
chegar aos primeiros lugares. Fui entendendo
então que meu lugar não era ali,
e concluí também algo muito importante,
não aprovo festivais, não acho
que exista música melhor ou pior, afinal
existem gostos diferentes, preferências,
assim como algumas pessoas preferem ouvir um
estilo a outro. Nunca mais participei de festivais.
O lucro foi ter conhecido muita gente boa, algumas
se tornaram grandes amigos com os quais convivo
até hoje. Passei a ouvir muito, ouvia
música o dia todo, e conheci então
a música de meus ídolos maiores,
a música brasileira do Clube da Esquina,
Beto Guedes, Flávio Venturini, Lô
Borges, Milton Nascimento. Juntarem-se a eles
Cassiano, Hildon, Tim Maia, Djavan, Gilberto
Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Cláudio
Zolli. Ouvi muito também a música
negra norte-americana que, acredito, tenha sido
minha maior influência. Jackson Five,
Marvin Gaye, Steve Wonder, Ray Charles, enfim
a inesquecível Motown e as produções
maravilhosas de Quincy Jones. Chegava o fim
da era vinil e o CD era a novidade. Nos shows
intimistas que fazia as pessoas perguntavam
sempre se eu não tinha um disco gravado.
Foi então que em 1994 produzi de forma
independente meu primeiro trabalho em estúdio.
Chamava-se Destino. Depois deste, consequentemente
vieram Lado Zen em 1998, vencedor do Prêmio
Renato Russo que foi idealizado pela Secretaria
de Cultura do DF em homenagem a um dos maiores
compositores da minha geração
que havia falecido seis meses antes, duas músicas,
Lado Zen e Destino fizeram parte da trilha sonora
da novela Serra do Luar da Rede Minas de Televisão,
depois vieram o single Celestes em 2000, Hoje
à Noite em 2001, com participação
especialíssima de Jorge Vercilo, Beto
Dourah Coletânea em 2004, uma compilação
contendo 19 das minhas músicas mais executadas
dos trabalhos anteriores e uma forma que encontrei
de comemorar com meu público dez anos
de produção fonográfica,
também era completamente independente
e artesanal e marcou o início do Movimento
Cantando Pelas Beiradas, do qual fui idealizador
e tinha com ele a pretensão de unir músicos
independentes como aconteceu com o Clube da
Esquina em Minas Gerais e também com
o OutroSsim no Rio de Janeiro, em 2005 lancei
o Sorte que pra mim é meu melhor trabalho
pelo fato de me sentir maduro. Quando era criança
e na adolescência, tive o privilégio
de ouvir muita música de qualidade graças
ao bom gosto de meu pai que me apresentou Ray
Charles, Steve Wonder, Beatles e outras preciosidades.
Tudo isso aflorou no momento em que comecei
a compor. Fiz uma mistura de sonoridades e estilos,
juntei com minha poesia que também foi
fruto da poética mineira. Que beleza,
estava pronta a liga. A música negra
norte-americana me influenciou muito, porém,
só no CD Hoje à Noite, lançado
em 2001, foi que essa coisa eclodiu de vez.
O CD tem nítidas influências deste
estilo nos arranjos vocais, nos grooves, nas
letras. Ali também ficou evidente pra
quem conhece a boa música mundial a forte
influência da nigeriana Sade Adú.
Se tenho um ídolo, chama-se Sade Adú!
Gosto muito de tudo que ela fez e realmente
me espelhei em seu jeito suave de cantar, na
rítmica latina que ela impõe às
suas canções, nos elementos que
utiliza, enfim é minha maior influência.
O CD Sorte foi pra mim a consagração
dessa liga. Ali pude abusar de todas as influências
sofridas em minha formação musical.
O Sorte ficou consistente e com cara de maduro
causando a mesma impressão a muitas pessoas
que já conheciam meu trabalho. Sorte
mesmo eu tive ao encontrar algumas pessoas que
foram marcantes na minha trajetória.
Jorge Vercilo foi uma das preciosidades que
conheci. Em 1998 fui convidado a realizar um
show no Mistura Fina no Rio de Janeiro. Palco
requisitado por grandes nomes da música
nacional e internacional. Foi um grande momento
da carreira. Ouvi no rádio do meu carro
uma música de um outro cantor carioca
chamado Adil Tiscatte que me deixou impressionado.
Parei o carro pra ouvir direito, eu fico meio
desligado quando escuto coisa boa! Depois descobri
que ele era amigo de Ruy Godinho, produtor artístico,
publicitário, radialista e jornalista
um grande amigo meu, outra pérola que
cruzou meu caminho. Através do Ruy cheguei
ao Adil e o convidei a participar do meu show
no Mistura Fina. Como sabia que ele e Jorge
Vercilo pertenciam ao mesmo movimento cultural,
o OutrosSim, pedi a ele o contato do Jorge.
Meu encontro com Vercilo foi maravilhoso! Algumas
coisas me impressionaram, sua simplicidade e
seu tratamento carinhoso. Já conhecia
algumas coisas dele até porque sua música
mais famosa naquela época tinha sido
tema de uma novela global. Ele pediu pra eu
mandar meu CD pra ele, nessa época eu
morava em Brasília e ele no Rio. Mandei
o Lado Zen que era o que eu estava lançando
naquele momento. A resposta foi imediata, ele
adorou o CD, os arranjos, as letras, a parte
técnica. Nossa amizade ganhou força
quando o convidei a participar deste mesmo show
no Mistura Fina. Cantamos a música Praia
Nua dele e Véu e Sintonia de minha autoria
e de Vivian Lus, outra pérola. Incrível
mesmo foi quando percebi que nossas vozes eram
muito parecidas, mesmo timbre, com algumas sutis
diferenças como, por exemplo, seus falsetes
que são simplesmente fenomenais! Isso
é bem simples de se explicar, viemos
da mesma escola, curtimos os mesmos cantores
durante a fase de formação musical,
tivemos as mesmas influências. Jorge Vercilo
é hoje um grande ídolo nacional
e eu me orgulho muito em tê-lo como amigo.
Já combinamos de fazer música
juntos, algumas parcerias. Tenho planos de já
no meu próximo trabalho ter algo nosso.
Em 2001 ele participou do meu CD Hoje à
Noite cantando a música Celestes de minha
autoria. Ele também assinou os arranjos
vocais. A música até hoje é
bastante executada em rádios principalmente
do nordeste. Edson Júnior é um
jovem cineasta pertencente a mais nova geração.
Seus trabalhos são sempre voltados para
temas sociais. Tive a honra de assinar a trilha
sonora de dois de seus trabalhos, o curta A
Flor e a Senzala de 2003 e o maravilhoso média-metragem
Auroras de Ébano em 2005. Neste a sintonia
foi total porque eu acabara de lançar
o Sorte que trazia como faixa de encerramento
do CD a música Rumores que fala sobre
racismo. Foi casa e botão. Ele adorou
a música e ela passou a ser então
a trilha sonora do filme que trata justamente
deste tema, médicos, atores, jornalistas
negros que alcançaram uma posição
de destaque na sociedade com sua inteligência
e seu trabalho. Silvério Lemos também
é um nome importante pra mim. Durante
um curso de formação de atores
ele apresentou o CD Lado Zen ao dramaturgo Ney
Ferreira que na época estava produzindo
a novela Serra do Luar. O Ney me pediu as músicas
Lado Zen e Destino pra serem parte da trilha
sonora da novela como tema de amor de protagonistas.
Aceitei de imediato, claro! Dois anos depois
o Ney escreveu a novela Terra Prometida e mais
uma vez me pediu música para trilha da
novela e eu cedi Celestes, música do
CD Hoje à Noite que gravei com a participação
do Jorge Vercilo. O Tex sempre esteve comigo,
desde o primeiro trabalho. Um verdadeiro parceiro!
amigo, gente muito boa e acima de tudo um exímio
guitarrista. Esteve em Los Angeles durante dois
anos se especializando no GIT e fez trilha para
filmes por lá. Lançou um excelente
CD com seu quarteto instrumental que é
formado justamente pelos mesmo músicos
que habitualmente me acompanham e gravam comigo.
Sidnei Brito foi talvez o nome mais importante
que já cruzou meu caminho. Grande músico,
arranjador, especialista em música gospel
que também tem forte influência
na música que faço. O Brito foi
produtor musical do CD Sorte e no Hoje à
Noite ele produziu as músicas Charme,
Vinte Sóis, Flash Back, Hoje à
Noite e Eu Me Rendo. Naquele momento decidi
que ele seria o produtor do meu próximo
CD. Todos que se aproximaram de mim durante
todo esse tempo são singulares no sentido
de terem sido únicos, fundamentais. A
maior das pérolas que encontrei chama-se
Vivian Lus. Em pouco tempo se tornou parceira
constante. Letramos juntos várias músicas
e dividimos outras coisas mais. Produziu a maioria
dos show que fiz nos últimos oito anos
e contribuiu nas produções dos
CDs Lado Zen, Celestes, Hoje à Noite
e Beto Dourah Coletânea e no CD Sorte
além de ser parceira na faixa Croqui
também conduziu a produção
executiva e assinou as fotos da capa e encarte.
Humildemente tentei retribuir tudo isso com
a música Lus. Compus essa música
vendo-a dormir. muitas outras músicas
foram feitas para ela, como por exemplo Charme
do Hoje à Noite. Hoje tenho certo que
meu estilo está definido. Faço
agora o som que sempre quis fazer espelhando
meu interior que é conteúdo de
minha percepção. Mas não
pretendo ficar por aí, quero aprender
mais, ouvindo mais e absorvendo mais e sempre
criar coisas novas. Utilizar, por exemplo, elementos
eletrônicos considero ser uma necessidade
e evolução, mas o melhor é
que gosto das possibilidades que essa tecnologia
me proporciona, mas ainda me sinto flertando
com o eletrônico. Loops, interferências
sempre valorizam o que pretendo passar. Isso
se tornou possível pra mim depois de
ter experimentado esses recursos no Hoje à
Noite aliados as execuções reais
de músicos super-competentes, afirmo
até que o Sorte seja uma continuidade
do projeto anterior.
Por
fim, me considero hoje um feliz aprendiz da
minha própria arte. Sem querer filosofar
já filosofando. Sinto que estou em evolução
e minhas canções retratam isso.
Quero deixar minha obra espalhada por aí,
plantada com raízes profundas, como referência
para novos compositores, e minha biografia servindo
de exemplo pra muita gente. Beijo dourahdo,
luz, paz, amor e muita SORTE.
Beto
Dourah - Julho de 2005